Associação Cultural Humaitá

Agbegbe fun ijosin ti orisá ati Umbanda
Mapeando o universo, segundo a cultural Bantu-Kongo

Os estudos da cultura Bantu-Kongo são escassos. Nessa busca por escritos e estudos desta cultura, nos deparamos com um “racismo cultural” se assim posso me expressar. Os estudiosos como Bastide e Nina Rodrigues que estudaram as culturas afro brasileiras, acreditavam que os negros que por aqui aportaram, que vinham do Congo e do sul da África eram inferiores culturalmente aos negros Yorubás, e que sua cultura não era digna de estudos. Além dos estudos de Fu-Kiau muito pouco há desta cultura.

Abaixo transcrevo um trecho de “A cosmologia africana dos Bantu-Kongo por Bunseki Fu-Kiau: Tradução negra, reflexões e diálogos a partir do Brasil”.

Para o povo Bantu, em particular o Kongo, o universo como vemos e conhecemos é o resultado de um evento “primitivo” que aconteceu em e ao redor dele [dûnga kiantete], mais conhecido como luku lwalâmba Nzâmbi – Deus cozinhou a massa, isto é, as matérias magmá-ticas, o big bang (Fu-Kiau, 1969). É o resultado de um expansivo processo ígneo que lega, através de um processo de arrefecimento [nghodolo], satélites e planetas. Esse é o processo do fogo cósmico, em expansão [dingo-dingo dia mpiâya yayalanga].
De acordo com o ensinamento Kongo, o planeta Terra foi o ponto inicial desse fogo [mpiâya yâyi – centro/didi] no nosso sistema solar [kûndu kièto, nza, i kènko dia ntônono a mpiâya yâyi mu fu kia ntângu]. No solo do antigo ensinamento Bantu, o universo pode ser mapeado [tendumunwa/yalwa] em três principais camadas ou zonas [nyalu/zûnga], a depender se se encontra em estado verde, cinza ou vermelho.


a) Planetas verdes ou que respiram
[nza yankûnzu/yavûmuna]
São planetas vivos porque completaram os quatro grandes estágios de formação do cosmograma Kongo conhecido como dikenga dia Kongo (Fu-Kiau, 1969, 1980, 1991). A palavra-chave para esses planetas é verdor [bunkûnzu], a vitalidade fornecendo a natureza.
Planetas verdes, qual o nosso planeta Terra, podem ser pensados como os mais antigos planetas nos sistemas solares. A Terra, por exemplo, é vista, para o povo Bantu, como o planeta mais antigo do sistema solar. Planetas verdes ocupam o centro [didi] dos sistemas no nosso universo em expansão.
A expansiva energia de fogo criativa que partiu do primeiro evento [dûnga kiantete] ou big bang [kimbwandènde] não foi uma explosão experimental de laboratório, dizem os Bantu-Kongo. Foi uma natural (diga-se divina) ordem imperativa para trazer à existência um processo de transformação por todo o universo e todos os seus planetas até a completa maturidade, ou seja, até se tornarem aptos a respirar e dar/portar vida [vûmuna ye vâna/tambikisa môyo].
No nosso atual “conhecimento”, a Terra é o único planeta conhecido que tenha cumprido tal ordem: Ela é verde (respira) e não só dá vida, como também, até agora, pode sustentá-la.


b) Planetas cinza [nza yavèmba].
São planetas “sem” vida ainda. Eles são sem vida porque ainda estão em seu estágio de esfriamento [ghola], eventualmente, encaminhando-se ao segundo, terceiro e quarto estágio
do dikenga dia Kôngo, as maiores etapas do cosmograma Kongo conforme descritas nos meus trabalhos (1969, 1986, 1991). A lua [ngônda] e o planeta Marte [n’kasi a ngônda], que signifi-
ca “esposa da lua”, são desse estágio.
Planetas, nesse grupo, ocupam a segunda camada do mapa, imediatamente, após a camada dos planetas verdes. A palavra-chave nessa zona [lubata] é “cinzura”/pó [vèmba/fundu-
fundu], e também aridez [yuma]. Esses planetas são desnudos, secos e cobertos de pó. Planetas cinza são sem vida como a conhecemos, ou seja, sem plantas, animais, e, naturalmente,
sem seres humanos. O ensinamento Bantu-Kongo sugere que, se deixados sozinhos, irão finalmente completar os quatro estágios do processo de transformação dos planetas baseados no
cosmograma Kongo; assistirão, portanto, ao surgir das plantas, animais e seres, assim como os humanos partilham a vida.


c) Planetas vermelhos/quentes [nza ya mbengelele]
Planetas vermelhos ou quentes são, efetivamente, planetas ardentes. Eles ainda são matérias em fusão sem uma forma ou configuração claramente definida [zenge-zenge diatiya
kôndwa mbèlo yasukuswa]. Situam-se em seu estágio primitivo ou “primeiro” do processo de formação planetária, estágio de big bang [kimbwandènde]. Os referidos planetas formam a
última fronteira real de um sistema, tal como o nosso. Além dessas fronteiras, há infinitos campos escuros a serem invadidos pelo futuro processo ígneo [dingo-dingo] dos sistemas em
expansão.

Encerrando esta nossa publicação, ao analisar este pequeno trecho sobre a tradição Bantu-Kongo, cientes de que estamos tratando de uma cultura milenar e de tradição oral, entendemos de que se trata de uma cultura que tinha conhecimentos profundos sobre diversas áreas. Certamente não detinham o aparato tecnológico de que dispomos hoje para fazer ciência, mas certamente se o tivessem disponível, dariam aula a muito cientista de hoje.

Axé!

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