Associação Cultural Humaitá

Agbegbe fun ijosin ti orisá ati Umbanda
Um gaúcho chamado Pai João Inácio

Jesus Salve a Umbanda!!

Diz o véio mais véio, e também mais negro preto da noite, que nasceu na Fronteira do Rio Grande do Sul pelos idos da Revolução Farroupilha. Pobre, cresceu mais magro que taquara, mais humilde que todos seus compatriotas gaúchos. Trabalhava para comer. E para se esquentar nas frias noites da fronteira, em campos abertos, tomava querosene.

E para ter com o que rir em sua sofrida vida, colocava guampas de boi na pátio de sua velha casa, a fim de assustar a gurizada.

Vivia com o que Deus dava, e sua coragem e sacrifício conseguiam. Nada mais.

Casou? Se apaixonou? Teve filhos? Pegou eles nos seus bracos negros e magros? Disso não sabemos. Talvez seu grande amigo e aparelho Michel de Oxalá – outro que é preto por dentro e branco por fora, opa, todo pintado por fora – saiba. Mas como é discreto e este assunto é do coração de Pai João Inácio, não vai falar.

Mas não precisa falar. E também o Velho João não precisa contar. Já teve muitas tristezas em sua longa vida aqui no Sul, e muitas lágrimas correram de seus velhos olhos azuis. Sim, posso apostar que os olhos azuis do Michael são heranças do Pai João Inácio, que também tinha os olhs azuis…

Era um negro bonito. Acho que muito safado. Namorador. Enrolador de fumo preto na palma da mão.

Ah, e por falar em enrolador de fumo e tomador de querosene, deve ter sido nestas ocasiões que, a noite, sozinho, nos campos gelados da fronteira, sentava em seu banquinho de madeira, fazia fumaça e olhava para o Céu estrelado e pensava em seu grande amigo Jesus Cristo. E pensava com sua cabeça preta e olhos azuis: “como tu é bom pra mim”!!!

Mesmo com lágrimas de tristeza pela pobreza em que vivia, e pela solidão da casinha pobre de madeira e chão de terra, agradecia ao bom irmão que lá do Alto cuidava daqueles que mais sofriam. E também posso apostar que fora nestas ocasiões que aprendeu a desenhar a Cruz num pedaço de madeira, como faz todas as vezes e que vem trabalhar na Terreira do Sete Raios…

Que orgulho deve ser para este Velho Negro estar trabalhando para a Umbanda!! Ja até posso ouvir ele falando, humilde, com vergonha, dizer: “nego não tinha nada, hoje tem tudo”!!

Humilde, tira de si a importancia e recoloca em nós; humilde, se anula para se doar para nós; humilde, aceita vir na roupagem de um preto velho num ambiente humano pesado, para fazer bem para nós; humilde, se cala diante de tanta imperfeição humana, para dar um novo caminho para nós; humilde, fala dos outros espíritos e não de sí, para não aparecer!

Vejam que utilizei as palavras “humildade” e “para nós” várias vezes ao longo do parágrafo de cima. É QUE PAI JOÃO INÁCIO FAZ O TEMPO TODO O QUE JESUS FAZIA em sua passagem pela Terra: se anulou e nos colocou no centro das discussões. Em toda a História da Humanidade até aquele momento, Deus ou Jesus eram o centro; no Novo Testamento e nos Evangelhos, Jesus é o centro! Mas o que Jesus Cristo fez: se anulou, saiu do centro e COLOCOU NÓS no centro e colocou em nós um alvo nas costas e disse: vivo por voces…

É o que faz Pai João Inácio: coloca nós no centro de sua atenção…

Assim, que Jesus Cristo abençoe Pai João Inácio onde este véio bem véio estiver…que nunca perca de vista este gaúcho da nossa fronteira…que nunca deixe ele ir muito longe e sózinho…que sempre busque este véio de olhos azuis onde ele estiver…que nunca deixe este velho homem passar mais frio e fome…nem deixe ele sem fumo e sem sandálias em seus pés machucados.

E que salve ele das bengaladas da Vó Marisa Conga…uma veía muito ciumenta!!

Saravá a todos vocês.

José Augusto da Cunha Meira

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.